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As Mulheres
Muçulmanas e a Vida Comunitária
Dr. Ahmad Shafaat
A participação das
mulheres muçulmanas em benefício do Islam e dos muçulmanos, em geral,
tem sido muito limitada, até agora. A maioria das nossas irmãs
dedica seu tempo livre na leitura de romances, assistindo filmes,
falando ao telefone ou visitando umas as outras. Durante estas
“visitas sociais”, o que se verifica é a manutenção de uma conversa
sem fundamento nenhum, que tem como tema principal “quem possui mais
bens materiais” (Tv estéreo, vídeo cassetes, carros, casas, jóias,
etc). Este comportamento reflete um descuido em relação às palavras
de Deus:
“Aqueles que estão
ocupados em competir por mais e mais até o dia de suas mortes, em
breve saberão da verdade...”. (102:1-3)
Uma razão que leva nossas
irmãs a não empreenderem seus tempos livres em prol do Islam, apesar
de manterem um significativo interesse pelo mundo material, é a
idéia defendida em vários círculos religiosos, com diversos graus de
intensidade, de que as mulheres deveriam concentrar suas atenções e
energias, exclusivamente, no trabalho doméstico; sendo assim uma
responsabilidade estritamente masculina o trabalho comunitário.
Naturalmente, esta
atitude ou desencoraja completamente as mulheres muçulmanas a terem
qualquer participação social, ou induz as mesmas a participarem de
círculos sociais, onde os valores islâmicos não são respeitados.
* Participação em Preces Congregacionais:
A concepção de que o
papel feminino está limitado às tarefas domésticas é, porém, uma
criação das nossas mentes e não está baseada nos preceitos de Deus e
Seu Mensageiro.Em conseqüência disso, as mesquitas seriam centros de
participação muçulmana, porém alguns irmãos impedem que as mulheres
freqüentem o templo. O Alcorão e o Hadith não deixam dúvidas de que
é desejável que as irmãs visitem a Casa de Allah e façam suas preces
em conjunto, tal qual os homens. Eis aqui um dos versos corânicos
que faz referência às preces congregacionais:
“E rezem regularmente e
pratiquem a caridade regularmente e curvem-se com aqueles que se
curvam”.(2:43)
Aqui o verbo curvar (em
árabe = ‘arka’u) está no masculino plural, mas existe uma
regra bem conhecida da Tafsir corânica, (e com certeza de
interpretação da maioria dos escritos), em que tudo que foi escrito
no masculino plural é aplicável a ambos: homens e mulheres.Isto só
não ocorre, caso haja alguma recomendação, para que a afirmação seja
referente a um determinado sexo. Neste verso, não existe nenhuma
indicação de que as mulheres devam ser excluídas: Assim, as palavras
“rezem regularmente”, “pratiquem regularmente a caridade” e
“curvem-se com aqueles que se curvam”(isto é, rezem em congregação)
são endereçadas aos homens e mulheres, da mesma forma. Uma prova
adicional do que está sendo mencionado, pode ser encontrada em 3:43,
onde é dito o seguinte a uma das mais santas mulheres da história da
humanidade:
“Oh Maria! Cultue o seu
Senhor com devoção”; curve-se com aqueles que se curvam.”
É interessante notar que
Deus não ordena Maria a “curvar-se com aquelas mulheres que se
curvam”, e sim se utiliza o masculino plural, que como foi dito
anteriormente, inclui homens e mulheres. A ordem de Deus a Maria
significa isto: “curve-se (ao realizar sua prece) com os seguidores
(homens e mulheres), que se curvam”.
O fato de que esta ordem
tenha sido endereçada a Maria, que viveu antes do advento do Islam,
não significa que não tenha relevância para nós. Nada do que está
escrito no Alcorão sobre mulheres e homens de tempos remotos pode
ser considerado sem importância para nós, até porque o Alcorão não
nos relata histórias de tempos antigos somente para nosso
entretenimento. Estas histórias nos são contadas, com o objetivo de
nos mostrar lições morais e espirituais, porém a menos que haja
indicações do contrário, elas também constituem a base da Sharia
Islâmica, já que são amplamente reconhecidas pelos estudiosos
muçulmanos (1).
Conforme estas indicações
no Alcorão, nós observamos que no tempo do Profeta (Mohammad)
mulheres e homens costumavam ir a mesquita para suas preces diárias,
incluindo Fajr (oração da manhã) e Isha (oração da noite). Este é um
dos poucos fatos sobre a Sunnah nos tempos do Profeta, do qual nunca
se teve dúvida, nos últimos quatorze séculos da História Islâmica.
Até mesmo aqueles que se opõem ao fato das mulheres irem a Casa de
Allah, admitem isso.Apesar de reconhecerem este fato, os mesmos
impedem ou desencorajam as mulheres de irem a mesquita, porque
passaram a adotar a concepção de Hadhrat ‘Umar, o qual noticiou que
as mulheres a caminho da mesquita não estão seguras.
Porém, nós não podemos
basear nossa conduta neste relato de Hadhrat ‘Umar, já que em um dos
Hadiths o Profeta diz especificamente para que os muçulmanos não
impeçam as mulheres de visitarem a Casa de Allah.Segundo Imam Malik
(que vivia em Muwatta), aqui está a opinião do Profeta em relação a
este tópico:
“Não impeça as servas de
Allah de irem às mesquitas de Allah”.
Mais tarde, no século
terceiro, Imam Bukhari (nascido em194 A.H), incluiu no seu Sahih
uma lei similar do Mensageiro de Deus:
“Quando a mulher de um de
vós pedir para ir à mesquita, NÃO A IMPEÇA”.
Se Hadhrat ‘Umar impediu
as mulheres que fossem às mesquitas, como ele relatou ter feito,
então ele fez exatamente o que o Mensageiro pediu aos muçulmanos que
não fizessem. A questão é: Hadhrat ‘Umar violou os ensinamentos do
Profeta, talvez porque não estava atento ao Hadith encontrado em
Muwatta e Bukhari?(2) Ou estes Hadiths não são autênticos?(3) Ou
porque o relato sobre Hadhrat ‘Umar, impedindo que as mulheres
fossem às mesquitas era falso?(4)
É difícil dar uma
resposta precisa, porém um fato é claro feito cristal: Se por um
lado, temos alguns relatos explícitos do Profeta, por outro lado,
temos do mesmo modo, uma informação segura ou insegura sobre o ponto
de vista de um Suhabi (companheiro do Profeta). Não temos outra
escolha a não ser, concordar com os ensinamentos do Profeta,
especialmente quando o Alcorão aponta sempre a estes. Sendo assim,
as irmãs muçulmanas podem visitar as casas de Allah, sempre que
puderem fazê-lo. Da mesma maneira que visitam a mesquita, elas
deveriam mostrar interesse nas atividades desenvolvidas nestas.Em
particular, elas deveriam levantar suas vozes contra as pessoas que
se manifestam tentando controlar a participação feminina nas Casas
de Allah.
*
Participação em Outras Áreas:
Além da participação nas
preces congregacionais (coletivas) e nas tarefas relativas à
mesquita, as mulheres muçulmanas tanto podem, como deveriam se
envolver em outras atividades em prol do Islam, de acordo com a
disponibilidade de tempo. O islamismo não impõe limites ao nível de
envolvimento feminino às atividades em prol da comunidade islâmica.
Nos tempos do Profeta e dos seus Califas bem orientados, vemos
mulheres participando da Jihad, não somente ajudando no suprimento
de água às tropas, mas também como enfermeiras e até mesmo como
combatentes.Na batalha de ‘Uhad, por exemplo, o Profeta estava em
determidada ocasião enfrentando sozinho o ataque dos inimigos.
Podemos afirmar que uma mulher denomidada Umm ‘Ammara, juntamente
sua família defenderam de forma bem sucedida o Profeta nesta hora
difícil.
A primeira mártir no
Islam foi uma mulher, Hadhrat Summayyah. Durante o califado de
Hadhrat ‘Umar, os muçulmanos estavam sob o ataque do exército romano
em um lugar chamado Marj as-Safar. Uma mulher muçulmana recém-casada,
Umm al-Hakim, depois de ter seu marido torturado pelos Romanos,
lutou ao lado de outros muçulmanos por quase todo o dia.Antes de
anoitecer, Umm al-Hakim foi morta por sete soldados inimigos. Os
muçulmanos prestaram homenagem a heroína renomeando Marj as-Safar
para Qantara Umm al-Hakim.
Nos tempos do Profeta,
também podemos observar mulheres conduzindo negócios ou engajadas na
atividade agrícola.Dentre elas podemos citar: a primeira esposa do
Profeta, Khadijah , Hadhrat e a filha de Abu Bakr, Asma. Nós vemos
mulheres ocupando posições administrativas. Após a conquista
muçulmana de Makkah, o Profeta incumbiu Umm Hani com a tarefa de
decidir a quem deveria ser dado o asilo. Hadhrat ‘Umar nomeou
Shifa’bint’Abdallah como supervisora do comércio, a qual tinha a
tarefa de fiscalizar se havia ou não corrupção nas atividades
mercantis. Provavelmente, neste cenário, Imam Abu Hanifah manteve a
idéia de atribuir às mulheres cargos de oficiais na área de finanças,
fato que mais tarde ganhou força, já que estas passaram a ocupar
várias posições administrativas.
Na época do Profeta, pelo
menos uma mulher ocupava a posição de Imam durante a prece.Ela
conduzia a oração em sua própria casa, auxiliando inclusive os
escravos do sexo masculino a realizarem a prece de forma adequada.
As igrejas católicas ainda estão discutindo sobre a idéia de
permitirem as mulheres a se tornarem sacerdotes, é valido dizer que
mais de dez séculos atrás, os juristas muçulmanos já haviam aceitado
as mulheres desempenhando a atividade de Imam, sem nenhuma exceção.
É verdade que o nível de
participação feminina nas atividades islâmicas era extremamente
pequeno, quando comparado ao masculino, porém isto não acontecia
pelo fato do Islam oferecer obstáculos para que as mulheres
tornassem-se mais ativas perante a comunidade.Na verdade existem
alguns fatores naturais que contribuem para que o envolvimento
feminino seja mais tímido, do que o masculino. Uma vez que a mulher
se casa e tem filhos, ela fica naturalmente “presa”, pelo menos por
algum tempo, ao cuidado das crianças.Outra razão é a diferença na
constituição biológica entre os dois sexos. A mulher é fisicamente
mais delicada do que o homem e menos capaz de suportar as pressões
do difícil mundo exterior. Além disso, existe a tendência infeliz de
uma parte dos homens de manter as mulheres longe da vida social,
fato que existiu até mesmo antes do advento do Islam.
O que seria ideal para o
Islam é a participação feminina na comunidade na medida do possível,
sem que a mulher negligencie seu importante papel de mãe e esposa.
Da mesma forma, é importante que o homem também tenha participação
ativa junto ao Universo Islâmico, de acordo com suas habilidades,
sem que descuide da sua responsabilidade de marido e pai.
O que nós estamos dizendo
aqui é diferente da opinião defendida por alguns escritores. Seus
pontos de vista podem ser resumidos da seguinte maneira: “Sim, as
mulheres podem participar de todas as áreas da vida coletiva, mas o
melhor é que elas não o façam”. Segundo nosso ponto de vista, é
positivamente desejável e algumas vezes obrigatório que tanto as
mulheres, quanto os homens, participem coletivamente das tarefas em
prol da Ummah, sempre que puderem.De acordo com os princípios da
Tafsir Corânica (interpretação), anteriormente aqui mencionada, as
determinações do Alcorão e Hadith, no que se refere ao Jihad, ao
adquirir e propagar o conhecimento do Islam de forma verdadeira e
justa, não é responsabilidade única dos homens, mas de todos os
muçulmanos (homens ou mulheres).As leis no que dizem respeito aos
aspectos pessoais da religião como: prece, jejum, peregrinação, etc;
referem-se tanto aos homens, quanto as mulheres(com algumas
recomendações em relação à vestimenta,por exemplo); portanto os
ensinamentos do Islam sobre estas e outras questões sociais são
endereçadas a ambos.
Notas:
(1) Em conseqüência
disso, por exemplo, Ibn Kathir, que fala pela maioria dos
intelectuais dos tempos remotos, diz o seguinte, no seu comentário
sobre outro verso relativo a Maria (3:36):
“(Assim que Maria
nasceu, sua mãe disse): ‘O nome dela será Maria’. Isto mostra que é
permissível nomear a criança no mesmo dia, em que esta nasce. Deve-se
considerar que uma Shari’ah antiga é também parte da nossa shari’ah,
já que se encontra registrada no Alcorão e não pode ser alvo de
contradições”.
Pelo mesmo motivo, as
palavras de Deus a Maria, no que diz respeito à realização das
preces coletivas, deveriam constituir parte da estrutura da Shari’ah
Islâmica. A propósito, a história de Maria nos ensina outra
perspectiva: A mulher pode se dedicar por tempo integral ao serviço
de Deus e para atender a este objetivo viver na mesquita. Quando a
mãe de Maria estava grávida, sem se preocupar se o sexo do bebê que
esperava era masculino ou feminino, ela prometeu a Deus:
“O meu Senhor! Eu vos
dedico o que está no meu ventre para Vosso serviço, portanto aceite
meus votos” (3:36).
O que provavelmente ela
tinha em mente era libertar seu filho (a), quando este (a) atingisse
a idade de viver no Templo de Salomão (Masjid al-Aqsa) e servir a
Deus em sua Casa Sagrada. De acordo com os costumes judeus, em geral
somente os homens podiam louvar a Deus e a sua Casa desta forma.
Portanto, quando a mãe de Maria olhou para a pequena menina, disse,
numa mistura de felicidade e ironia:
“Oh meu Senhor! Eu dei
a luz a uma menina” (3:36) E “Deus estava bem ciente da Sua obra”
(3:36).
Ele, de forma
determinada, presenteou aquela mulher com um bebê do sexo feminino,
em resposta à promessa que ela havia feito.Por isso dizemos que o
mundo pode saber que Deus aceita a seu serviço homens e mulheres,
sem nenhuma distinção. Ele “recebeu Maria com Sua graça”.
(2) Isto não é impossível,
já que existem outros casos em que Hadhrat ‘Umar supostamente adotou
a idéia que posteriormente foi considerada contrária ao Hadith Sahih.
Assim os contos de Bukhari relatam que Hadhrat ‘Umar costumava
pensar que a pessoa estando no estado de Junub, não poderia
realizar o Tayammum, quando a água não estivesse disponível para
banho.
Ammar bin Yasir mencionou
para Hadhrat ‘Umar que o Profeta permitiu-lhe a prática do Tayammum,
quando houvesse a necessidade de um banho.Porém Hadhrat ‘Umar, por
alguma razão, não deu crédito ao que Ammar havia dito. Entretanto
mais tarde, a história de Ammar bin Yasir foi encontrada e as
pessoas começaram a proceder de acordo esta, como fazem ainda hoje,
apesar da rejeição de Hadhrat ‘Umar
(3) Isto também é
possível, desde que os escritos de Muwatta e Bukhari foram
compilados por volta de 150 e 200 anos após a morte do Profeta e
este tempo é grande o suficiente para dar margem a propagação e
aceitação de relatos duvidosos, os quais podem estar presentes até
mesmo em livros cuidadosamente produzidos do Hadith.
(4) Segundo nosso ponto
de vista isto é o mais provável.
Texto
original: "Muslim Women and Comunity Life" do Dr.Ahmad Shafaat,
retirado do site islâmico
"Islam -
The Modern Religion"
Este
artigo foi traduzido por Sarah de Andrade Siqueira(Bacharel em
Letras), que realiza trabalhos profissionais de tradução do alemão e
do inglês para o português.
Sarah de
Andrade Siqueira pode ser contatada no e-mail:
sarah_de_andrade@hotmail.com
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